Princípios do educador montessoriano #2

2. Nunca fale mal da criança na sua presença ou ausência

“Ele é manhoso!”

“É mimado demais!”

“Ele é mau, levanta-me a mão!”

“Não sabe fazer nada!”

“Só faz porcaria!”

“Só sabe chorar!”

“Está sempre a chatear-me!”

“O irmão não era nada assim!”

“Pensava eu que vinha outro bebé calminho…!”

“Já só funciona à palmada!”

“Ele já a sabe toda!”

 

Podia estar aqui o dia inteiro a escrever frases típicas e que ouvimos por parte de muitos pais. Há, de facto, desafios difíceis de superar com um bebé/ criança, porém, porque entendemos que devemos descarregar na imagem dela a nossa frustração e cansaço? Pior ainda, na imagem que passamos dela para os demais? Com tantos aspectos positivos que ela certamente terá, porque nos focamos em “contaminar”, ao invés de “contribuir”? (Recordam-se?).

Pois bem, não só tornamos as conversas entre amigos e conhecidos num verdadeiro aborrecimento, como desrespeitamos os nossos filhos que não estão ali para se defenderem ou nos desmentirem. E, ainda que estejam, nunca usufruem de uma posição para tal. Isto porque o pai/ mãe que tem esta conduta, é o mesmo que usualmente assume uma posição de “ser superior”, não estando acostumado a colocar-se ao nível do filho, nem para comunicar, nem para ouvir.

Tal como fiz no post relativo ao 1º princípio, volto a colocar a questão: fazemos isso com outros adultos? Se a resposta for sim, então façamos uma introspeção no sentido de reconhecer e corrigir esse comportamento. Se for não, uma segunda questão emerge: porque havemos de o fazer com as crianças?

No momento em que elas começam a entender o conteúdo das conversas ou dos comentários negativos alheios, podemos certamente esperar comportamentos reactivos da parte das mesmas. Ninguém gosta de se sentir atacado, minimizado, ridicularizado e muito menos envergonhado.

São sentimentos de revolta, aqueles que queremos gerar nos nossos filhos?

São diálogos negativistas e enfadonhos, aqueles que queremos ter com os nossos conhecidos, amigos ou familiares?

 

Concentremo-nos no bem 🙂

 

Até breve!

Joana

Princípios do educador montessoriano #1

A filosofia de Montessori traduz-se numa série de valores, princípios e métodos que, juntos, visam constituir uma “educação para a paz”. Não precisamos de nos aprofundar muito no tema para percebermos o porquê. O Ser Humano completo (o grande objetivo) caracteriza-se pela sua pacificidade e serenidade para consigo e para com os demais. É uma forma de estar na vida e é também a forma na qual nos devemos encontrar, enquanto educadores montessorianos.

Esta paz deve, assim, começar em nós mesmos e, na base da mesma, está o nosso entendimento acerca do significado de respeito. Enquanto pais e educadores, respeitar a criança é essencial. Fazer com que a mesma se sinta, constantemente, respeitada fará, por conseguinte, com que ela respeite os outros, com a sua individualidade e diferença, e seja aberta à diversidade, entendendo-a como algo que enriquece o mundo e não como uma ameaça que deve ser eliminada. O contacto com esta diferença, desde muito cedo, é a semente para a paz que plantamos nos nossos filhos.

Maria Montessori enumerou 10 princípios básicos que visam guiar-nos no sentido do respeito pela criança e pelas suas necessidades. Estes devem ser seguidos em casa, tal como em qualquer ambiente montessoriano. Falaremos acerca de todos eles, um por um, em diferentes posts. É importante reflectirmos individualmente. Cá por casa, para que nunca caiam no esquecimento, foram afixados no frigorífico e, diariamente, passamos os olhos por eles 😉

1. Nunca toque a criança, a menos que seja convidado por ela de alguma maneira

Já pensaram na quantidade de vezes em que tocaram, ou mesmo pegaram, numa criança sem que ela tenha pedido ou demonstrado interesse nisso? Assumo aqui a mea culpa… fi-lo vezes sem conta, sem nunca pensar no quão errada estava.

Respeitar a criança passa por não a entendermos como um ser sem vontade própria e “manuseável” por toda a gente. Devemos evitar tocar nela sem o seu consentimento, sendo que ela própria pedirá ou dará sinais quando quiser que tal aconteça, basta que os saibamos interpretar.

O mesmo se aplica àqueles momentos em que a mesma está ocupada com alguma tarefa, a ler um livro, a brincar, ou mesmo a descansar. Não devemos interrompê-la, muito menos com qualquer contacto físico. Devemos sim respeitá-la, bem como aquilo que ela está a executar no momento.

É, igualmente, importante respeitar a criança quando ela está aborrecida ou zangada e não quer que ninguém a segure ou toque.

Agora que o Vicente nasceu e, em particular, nesta fase em que ele é muito pequenino e não expressa facilmente a sua vontade, há uma tendência natural para que toda a gente queira pegar nele, agarrar-lhe nas mãos, dar-lhe beijinhos, etc. Não podemos, por um lado, querer educar todas as pessoas do mundo para o respeito que se deve ter para com qualquer ser humano, independentemente da sua idade, nem, por outro, formar uma “bolha” à volta do nosso filho, evitando todos os contactos. O bom senso deverá imperar e é isso que, enquanto pais, devemos exigir daqueles que nos rodeiam.

Um exemplo prático aplicado à nossa realidade actual: temos visitas em casa, ou estamos em casa de alguém, e o Vicente, por algum desconforto, chora sem parar. Naturalmente, muitos dos presentes vão querer pegar nele para o consolar. Ora, coloquemo-nos no lugar dele, um bebé que ainda não completou dois meses no processo de conhecimento e ligação aos próprios pais e ao ambiente onde vive. Se já estava desconfortável com algo, o que aconteceria se, de repente, se visse no colo de alguém que extravasa estes dois seres e que ele não conhece, nem identifica, de qualquer maneira, como “seguro”? Que confusão para uma mente ainda tão imatura! Possivelmente até podia parar de chorar, mas (sabemos todos) nem sempre isso é sinal de conforto. Enquanto pais, o nosso papel passa por, de alguma forma, criarmos o tal bom senso nas outras pessoas e, principalmente, protegermos o nosso filho daquilo que, ainda que as possa fazer sentirem-se bem, não o faz sentir-se bem a ele.

Agora que pensam nisto, não faz todo o sentido?

Não têm as crianças ou, num sentido mais estrito, os nossos filhos, o direito de não querem qualquer contacto físico com outras pessoas? Não usufruímos, nós adultos, desse mesmo direito inúmeras vezes? Qual a diferença, então?

Até já!

Joana

Voltando aos brinquedos…

brinquedos montessori

O tema “brinquedos”, na ótica de Maria Montessori, daria aso a parágrafos e parágrafos de conversa (mais ainda do que aqueles que vos proponho hoje :):) ). Na verdade, todo o desenvolvimento do ser humano advém da sua interação com o ambiente e os materiais que o rodeiam, desde o nascimento.

Já referimos anteriormente algumas formas de ajudarmos o nosso bebé a ter uma experiência sensorial rica, nomeadamente através da visão e tacto – como acontece quando criamos um móbile adequado e evolutivo. Este móbile é seguido da introdução das rocas, que já oferecem a possibilidade de desenvolvimento de uma maior coordenação mão-cérebro (ou mão-mente), possibilitando igualmente uma experiência auditiva.

Até aos 6 meses de idade, devemos assim oferecer ao bebé brinquedos que o ajudam a desenvolver esta coordenação da visão/ mão/ audição-cérebro e, indirectamente, a percepção da permanência dos objectos, bem como da causa-efeito. No post “brinquedos e minimalismo” poderão ver alguns bons exemplos, em especial nas prateleiras superiores da estante do quarto do Vi 🙂

A selecção destes brinquedos é, assim, tão importante como qualquer outro elemento do “ambiente preparado” para o bebé, seja a cama, o espelho, a estante baixa, a luminosidade… e tendo muito cuidado com a mesma, estamos, inevitavelmente, a mostrar ao nosso filho o quanto ele é importante para nós.

Uma criança com menos do que 6 anos (idade a partir da qual não me irei focar, para já) não tem ainda desenvolvida a sua capacidade de pensamento abstrato, apresentando, por sua vez, uma mente absorvente de tudo o que faz parte da realidade que a rodeia. Desta forma, até aí, todos os objectos baseados na realidade são úteis no processo. O problema aparece quando lhe são oferecidos brinquedos ou objetos que remetem para a fantasia ou lhe transmitem uma falsa ideia acerca do mundo – monstros, coelhos que falam, ursos que são vermelhos… Se a criança pequena não consegue desenvolver uma base sólida na formação da sua mente racional (ao ser colocada perante cenários nos quais ainda não consegue distinguir a realidade da ficção), aos 6 anos ver-se-á limitada no seu poder de imaginação e abstração. Como dizia Maria Montessori no livro The Advanced Montessori Method: “Como é que se pode desenvolver a imaginação das crianças através de algo que é o seu oposto, ou seja, a nossa própria imaginação? Somos nós quem imagina, não eles. Eles acreditam, não imaginam. A credulidade é, sem sombra de dúvida, característica de uma mente imatura (…). Assim sendo, será a credulidade aquilo que queremos desenvolver nos nossos filhos?”.

Outro obstáculo na escolha dos brinquedos mais adequados a oferecer ao bebé/ criança é a quantidade de opções que existem no mercado, bem como o número de acções que um mesmo objecto pode executar, retirando a possibilidade de ser a criança a autora daquilo que quer fazer com ele. Assistimos a cenários em que os pais (e até avós) são levados a consumir muito mais do que seria necessário e ideal, acreditando que, dessa forma, estão a demonstrar um amor maior por aquela criança. Na verdade, estão a passar-lhe a mensagem errada – a de que as pessoas gostam delas se e quando lhes dão “coisas” – quando elas, na realidade, apenas conseguem adorar uma boneca, um peluche e alguns (poucos) brinquedos de cada vez. Pode, à primeira vista, parecer “rebuscado”, mas esta experiência de ter poucos (e bons) brinquedos e “aquele” brinquedo de referência num determinado momento, constitui a base para a vivência adulta, onde precisamos de aprender a manter e estimar uma esposa/ marido, uma família, uma vida, em vez de fantasiarmos que podemos ter todas.

A introdução de electrónicos, como tablets, telemóveis ou consolas é mais um exemplo de obstáculo ao desenvolvimento. Estes objectos não respondem à criança com sentimentos iguais aos que receberia por parte de um ser “real”. As crianças podem tratar as personagens de um jogo da forma como entenderem, não necessitando de ter consideração por elas; não há qualquer feedback que lhes permita desenvolver sentimentos, cuidado e capacidade de resposta, como aconteceria se estivessem a lidar com outro ser humano. São objectos que ocupam o tempo que poderia ser dedicado a uma interação real. Constituem, dessa forma, uma base para o egocentrismo.

Que tipo de brinquedos deveremos, então, seleccionar e que poderão ajudar no desenvolvimento pleno do nosso bebé/ criança?

Antes dos 3 anos, todos os que possam ser utilizados de forma independente e que permitam a interação com outras pessoas, bem como a compreensão do mundo. Refutamos, assim, todos os que representem a fantasia de uma mente adulta, ao invés de fomentar a capacidade criativa da mente da criança. Também aqueles brinquedos chamados de “educativos” – caixas com rodas, luzes, sons, botões aleatórios – não têm qualquer benefício, pois apenas entretêm a mente, não envolvendo qualquer possibilidade de pensamento por parte da criança.

Um simples urso de peluche, idêntico à imagem do urso na realidade, pode ser um ótimo exemplo de brinquedo, ou mesmo uma boneca (ambos, na vida real, são seres com emoções e reacções que podem ser imitadas). A criança pode brincar com a boneca, por exemplo, simulando acções que acontecem consigo mesma no seu dia-a-dia: dando-lhe banho, vestindo-a, alimentando-a, colocando-a para dormir… e esta “brincadeira” repetida desenvolve a sua própria capacidade de se vestir a si mesma, tomar banho, alimentar-se sem ajuda. A boneca aparece assim como símbolo de si mesma ou de outro membro da família.

Também as actividades da vida prática podem ajudar no desenvolvimento de um pensamento mais profundo e da concentração, factores importantes na construção de “cenários” para as suas brincadeiras. Um exemplo de uma actividade deste género é a de cortar cenouras ou outro vegetal – um conjunto de tarefas estruturadas, com princípio, meio e fim, que induz ao pensamento ordenado. Estas actividades que envolvem experiências reais do mundo real são a chave da brincadeira imaginativa da criança.

Uma casa de bonecas, por exemplo, também pode resultar em horas de criatividade e até na oportunidade de aprender como o mobiliário se distribui numa casa (a ordem é, uma vez mais, trabalhada) – a cama no quarto, as cadeiras e a mesa na sala de jantar, o sofá na sala de estar… Outro bom exemplo são os modelos realistas em miniatura de animais que existem nos tempos de hoje. Estes podem ser dispostos em cestos diferentes, separados por domésticos/ selvagens, por famílias dentro da mesma espécie, por localização geográfica… e podemos aproveitar para desenvolver a linguagem da criança, pegando num dos cestos e ensinando-a acerca do nome de cada animal, enquanto vão sendo dispostos, cuidadosamente, lado a lado.

Mesmo sólidos de madeira coloridos e carrinhos são benéficos para crianças dos 15 meses aos 3 anos, se dermos alguma orientação e propósito à actividade. Podemos ter num cesto 3 carrinhos com cores primárias – vermelho, azul e amarelo – e ir retirando, um a um, indicando o respectivo nome – “carro vermelho”, “carro azul”, “carro amarelo” – à medida que os vamos dispondo lado a lado (tal como fazemos na actividade com os animais). Noutro cesto, podemos colocar 3 veículos diferentes com a mesma cor – carro, camião, mota – e repetir o exercício anterior, desta vez focados apenas no tipo de veículo.

O grande propósito desta brincadeira não é mais do que dar à criança mais uma chave para a descoberta do mundo que a rodeia. Um aspecto que devemos ter, contudo, em consideração, é a forma como vamos apresentando os materiais – tendencialmente, caímos no erro de substituir uma afirmação como “isto é um carro azul” por algo como “o que é isto?”. Esta pergunta representa um teste de conhecimento, não um conhecimento oferecido por nós, pais, à criança – e os testes (que nos são tão incutidos desde cedo no ensino regular…) são totalmente inapropriados para crianças pequenas!

 

E parece que me alonguei bastante, não é?

É um tema ainda tão pouco debatido e tão importante no dia a dia dos pais e futuros pais, que não podia deixar de tocar em vários aspectos que a própria Maria Montessori entendeu como cruciais. 🙂

Voltamos a falar em breve!

Joana